sábado, 13 de junho de 2009

Poetas no apocalipse


Amanhece ancestral o silêncio,
na cor alva da solidão
freme o orvalho demencial das páginas.
Parágrafos sombrios,
dançam encalhados
na desarrumação fetal da claridade.
Desta indomável alvorada
surge essa raça
que vive na excessiva melancolia.
Homens metáfora
a soletrar a absolvição definitiva do caos.


Alberto Pereira
Poema do livro "O áspero hálito do amanhã"

domingo, 29 de março de 2009

Ruínas da Eternidade - mp3






RUÍNAS DA ETERNIDADE

Canto o teu adeus,
nas lágrimas frias que beijam o orvalho matinal do coração,
na brisa que transporta a face sombria do fim.
Envenenaste a esperança,
fugiste com a única coisa que me restava.
Deixaste-me nas veias o sangue manchado de mágoa
e no espírito a raiva de ter acreditado que era possível.
O teu cheiro vagueia nas páginas do desespero,
a ausência preenche o vazio que me sufoca a memória.

Canto o teu adeus,
em todas as esquinas do meu sonho.
Corro pelas ruas e tropeço no silêncio
nesta cidade abandonada que desenhaste dentro de mim.
Deixaste o futuro partir,
condenaste-me a viver no presente oco
que escorre na miséria do sentimento.

Canto o teu adeus,
encostado às ruínas da eternidade
e vejo a saudade embriagada
nas mãos famintas da realidade.

Morro no teu adeus.


Poema do livro "O Áspero Hálito do Amanhã"
de Alberto Pereira

sábado, 28 de março de 2009

Bairro de Lata - Imagens que marcam





Bairro de Lata

No fim de um estreito carreiro desembarca um mundo perdido.Uma floresta de tábuas eriçadas que se espreguiçam na miséria,
dão abrigo aos homens mudos de sonhos.
A arquitectura desordenada dos telhados de zinco merenda a madeira nua que treme de podridão.

Em cima deles um sem número de inutilidades; pneus, tijolos e lixo reciclado pelas mentes que necessitam de guardar alguma coisa para enganar a desilusão.

Não se ouvem pássaros, apenas gritos e rumores das mulheres que dissecam cada pormenor da vida alheia. Estas não usam cremes, os seus cheiros são meteorológicos, pois o pouco dinheiro que lhes resta serve para saciar a fome à realidade.
As crianças correm, são “livres”, embora habituadas a sentir o álcool enfurecer as mãos dos pais sem razão plausível.

Joga-se à bola, ao berlinde e às escondidas. Realizam-se os jogos olímpicos várias vezes por mês, com prémios de cortiça e taças feitas com garrafas de óleo, cabos de vassoura e pratas retiradas dos maços de tabaco já consumidos.
Os homens embriagam os dias de esquecimento, os filhos com a infância engarrafada lavam o futuro na revolta.
Aqui abrem-se as portas à memória.

O tempo acende o sono dos sorrisos
E a cada dia que passa
nascem ilhas.

Alberto Pereira
In: O Áspero Hálito do Amanhã

ps: "Bairro de Lata" é o mesmo que Favela.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Manhã Idosa



Aguardei junto ao último apeadeiro do teu corpo.
Trazias a madrugada sulfúrica
deslumbrada de feridas,
apenas o olhar primaveril
salivava poeiras perfumadas.

Era Inverno no teu rosto,
os lábios maquilhados de cardos
indagavam raiva nas pálpebras lodosas.
O desejo alcatroado tremia-te
no asfalto sanguíneo.

Quis saber se escondias Verão no discernimento,
mas embalavas já no fulvo nebuloso do equívoco.
Deixaste-me tresloucado de rugas,
sedado no amanhecer.

Sou uma manhã idosa,
bolorenta de te sonhar
e acendo fungos em todas as margens de ti.
Nada sabe negar a evidência,
tenho a alma transladada de corvos pretos
a debicar orgasmos apodrecidos.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Palavra de Mulher


LISBOA - Biblioteca Orlando Ribeiro
A Papiro Editora promove no próximo dia 6 de Março pelas 21h30m,
no âmbito do Dia Internacional da Mulher, uma tertúlia intitulada Palavra de Mulher,
que reune cinco autoras no auditório da Biblioteca Orlando Ribeiro, em Lisboa.
Estarão presentes Maria Quintans, Teresa Salvado, Joana Branco, Otília Martel e Cristina Soares, autoras respectivamente de Apoplexia da Ideia, Das Minhas Águas Furtadas, Café, Canela e Coração, Menina Marota e Gineceu.
É uma tertúlia aberta a todos os que quiserem estar presentes,
na qual participarei a convite de Otilia Martel.
Alberto Pereira

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

O Grito - Edvard Munch



Na cripta do horizonte
vultos sanguíneos remam
sismos no crepúsculo.
A voltagem da tarde fortalece escuridão,
crescem nas pálpebras
archotes terror perscrutando desalento.
Há relâmpagos a brilhar pesadelos
e os homens fecham as mãos
dentro dos neurónios.
Pelos dedos escorrem gritos
que acendem abutres na frustração.

Apagam-se daltónicas emoções
no insalubre túmulo dos dias
e apenas a morte
sabe sabotar o desespero.


Poema do livro "O áspero hálito do amanhã"
de Alberto Pereira

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Feto - Leonard da Vinci



No horizonte amniótico brinca uma criança, único habitante
de um país isolado. Mergulhado há vários meses num manto
húmido vai remando os dias com impaciência. Resvala em
movimentos acelerados, escarpando o desassossego de quem não
pode perder o tempo que ainda não começou. A cada dia que
passa vê o espaço onde deambula reduzido.
Já não se senta pacientemente no lugar que lhe escolheram para
crescer, precisa de mais.
Está farto deste Verão em que o sol aprisionado brilha do outro
lado da pele.
Quer abandonar este mar em que não se afoga.
Quer procurar a vastidão de ruídos que ouve do outro lado da
vida, onde ainda não pode viver.
Flutuam-lhe nos olhos semi-cerrados, cidades adormecidas que
sonha acordar.
Tremem-lhe no corpo húmido, ilusões que suplicam crescer.
De repente estica-se, com a convicção que basta desta paisagem
crepuscular que só lhe pode oferecer dias clonados.
Dá um pontapé na neblina, sacode a solidão.
Abre-se um rombo na pele, a água rouca pinga entre as pernas
do universo. Tem um sismo a pernoitar na respiração. Emigra
por um canal estreito que escreve o adeus ao país que tem que
matar.
Sai,
uma luz intensa segreda-lhe,
nasceste.

Poema do livro "O áspero hálito do amanhã"
de Alberto Pereira

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Ruínas da Eternidade


Canto o teu adeus,
nas lágrimas frias que beijam o orvalho matinal do coração,
na brisa que transporta a face sombria do fim.
Envenenaste a esperança,
fugiste com a única coisa que me restava.
Deixaste-me nas veias o sangue manchado de mágoa
e no espírito a raiva de ter acreditado que era possível.
O teu cheiro vagueia nas páginas do desespero,
a ausência preenche o vazio que me sufoca a memória.

Canto o teu adeus,
em todas as esquinas do meu sonho.
Corro pelas ruas e tropeço no silêncio
nesta cidade abandonada que desenhaste dentro de mim.
Deixaste o futuro partir,
condenaste-me a viver no presente oco
que escorre na miséria do sentimento.

Canto o teu adeus,
encostado às ruínas da eternidade
e vejo a saudade embriagada
nas mãos famintas da realidade.

Morro no teu adeus.


Poema do livro
"O áspero hálito do amanhã"
Alberto Pereira

Musa Cinzenta pps





pps Musa Cinzenta de Eliane Marques

Poema do livro "O áspero hálito do amanhã"