quarta-feira, 25 de março de 2009

Manhã Idosa



Aguardei junto ao último apeadeiro do teu corpo.
Trazias a madrugada sulfúrica
deslumbrada de feridas,
apenas o olhar primaveril
salivava poeiras perfumadas.

Era Inverno no teu rosto,
os lábios maquilhados de cardos
indagavam raiva nas pálpebras lodosas.
O desejo alcatroado tremia-te
no asfalto sanguíneo.

Quis saber se escondias Verão no discernimento,
mas embalavas já no fulvo nebuloso do equívoco.
Deixaste-me tresloucado de rugas,
sedado no amanhecer.

Sou uma manhã idosa,
bolorenta de te sonhar
e acendo fungos em todas as margens de ti.
Nada sabe negar a evidência,
tenho a alma transladada de corvos pretos
a debicar orgasmos apodrecidos.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Palavra de Mulher


LISBOA - Biblioteca Orlando Ribeiro
A Papiro Editora promove no próximo dia 6 de Março pelas 21h30m,
no âmbito do Dia Internacional da Mulher, uma tertúlia intitulada Palavra de Mulher,
que reune cinco autoras no auditório da Biblioteca Orlando Ribeiro, em Lisboa.
Estarão presentes Maria Quintans, Teresa Salvado, Joana Branco, Otília Martel e Cristina Soares, autoras respectivamente de Apoplexia da Ideia, Das Minhas Águas Furtadas, Café, Canela e Coração, Menina Marota e Gineceu.
É uma tertúlia aberta a todos os que quiserem estar presentes,
na qual participarei a convite de Otilia Martel.
Alberto Pereira

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

O Grito - Edvard Munch



Na cripta do horizonte
vultos sanguíneos remam
sismos no crepúsculo.
A voltagem da tarde fortalece escuridão,
crescem nas pálpebras
archotes terror perscrutando desalento.
Há relâmpagos a brilhar pesadelos
e os homens fecham as mãos
dentro dos neurónios.
Pelos dedos escorrem gritos
que acendem abutres na frustração.

Apagam-se daltónicas emoções
no insalubre túmulo dos dias
e apenas a morte
sabe sabotar o desespero.


Poema do livro "O áspero hálito do amanhã"
de Alberto Pereira

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Feto - Leonard da Vinci



No horizonte amniótico brinca uma criança, único habitante
de um país isolado. Mergulhado há vários meses num manto
húmido vai remando os dias com impaciência. Resvala em
movimentos acelerados, escarpando o desassossego de quem não
pode perder o tempo que ainda não começou. A cada dia que
passa vê o espaço onde deambula reduzido.
Já não se senta pacientemente no lugar que lhe escolheram para
crescer, precisa de mais.
Está farto deste Verão em que o sol aprisionado brilha do outro
lado da pele.
Quer abandonar este mar em que não se afoga.
Quer procurar a vastidão de ruídos que ouve do outro lado da
vida, onde ainda não pode viver.
Flutuam-lhe nos olhos semi-cerrados, cidades adormecidas que
sonha acordar.
Tremem-lhe no corpo húmido, ilusões que suplicam crescer.
De repente estica-se, com a convicção que basta desta paisagem
crepuscular que só lhe pode oferecer dias clonados.
Dá um pontapé na neblina, sacode a solidão.
Abre-se um rombo na pele, a água rouca pinga entre as pernas
do universo. Tem um sismo a pernoitar na respiração. Emigra
por um canal estreito que escreve o adeus ao país que tem que
matar.
Sai,
uma luz intensa segreda-lhe,
nasceste.

Poema do livro "O áspero hálito do amanhã"
de Alberto Pereira

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Ruínas da Eternidade


Canto o teu adeus,
nas lágrimas frias que beijam o orvalho matinal do coração,
na brisa que transporta a face sombria do fim.
Envenenaste a esperança,
fugiste com a única coisa que me restava.
Deixaste-me nas veias o sangue manchado de mágoa
e no espírito a raiva de ter acreditado que era possível.
O teu cheiro vagueia nas páginas do desespero,
a ausência preenche o vazio que me sufoca a memória.

Canto o teu adeus,
em todas as esquinas do meu sonho.
Corro pelas ruas e tropeço no silêncio
nesta cidade abandonada que desenhaste dentro de mim.
Deixaste o futuro partir,
condenaste-me a viver no presente oco
que escorre na miséria do sentimento.

Canto o teu adeus,
encostado às ruínas da eternidade
e vejo a saudade embriagada
nas mãos famintas da realidade.

Morro no teu adeus.


Poema do livro
"O áspero hálito do amanhã"
Alberto Pereira

Musa Cinzenta pps





pps Musa Cinzenta de Eliane Marques

Poema do livro "O áspero hálito do amanhã"

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Musa Cinzenta



Todos os dias me sentava junto ao cais da tua boca
a ver-te voltear o sentimento.
Barcos irados
despenhavam-se no crude
com que navegavas as horas.
Marés calcinadas
reanimavam fantasmas
no tempo apagado.
E eu, ali,
debruçado sobre a orgia temperamental
contorcia-me na apoteose fumegante do fel.

Todos os dias subia trevas embriagadas
fulminado de abismos azuis
e no ingénuo paraíso
bebia relâmpagos de ilusão.
Electrocutado no hálito distante,
carregava metáforas luminosas
pelas margens sanguíneas do fascínio.

Agora junto à tua boca deserta,
desço as madrugadas que latejam na alma
por um rio gelado aceso de lâminas.

Hoje morrerei como todos os dias,
nas infindáveis lágrimas crivadas de pólvora
que deflagram na geometria transtornada da ausência


Alberto Pereira

Livro - O Áspero Hálito do Amanhã

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Novo livro de Herberto Helder


Em breve um momento marcante para a poesia.
O lançamento de mais um livro desse poeta fascinante que é Herberto Helder.


Título: OFÍCIO CANTANTE — Poesia completa

Autor: Herberto Helder

Colecção: Documenta Poetica

Ano de edição: 2009 / Tema, classificação: Poesia

Formato e acabamento: 14 x 20 cm, edição encadernada

N.º de páginas: 624

Apresentação:Ofício Cantante foi o título escolhido para a primeira publicação, em 1967, de poemas reunidosdo autor, na colecção Poetas de Hoje, na Portugália Editora, título agora recuperado para a sua poesia completa. Para além de alguns poemas inéditos (e outros retrabalhados), incluem-se aqui os poemas do já esgotado A Faca Não Corta o Fogo — Súmula & inédita, considerado o melhor livro de 2008 por alguma da imprensa especializada.



não chamem logo as funerárias,
cortem-me as veias dos pulsos pra que me saibam bem morto,
medo? só que o sangue vibre ainda na garganta
e qualquer mão e meia me encha de terra a boca,
sei de quem se tenha erguido, de pura respiração, do fundo da madeira,
saibro, roupa, gôtas de orvalho ou cêra,
ornatos, espadanas, lágrimas,
últimas músicas,
não é como no escuro o trigo que ressuscita,
sei sim de quem despedaçou as tábuas
e ficou entre caos e nada com o
sangue alvoroçado nos braços e nas têmporas,
que se não pare nunca entre as matérias intransponíveis,
cortem-me cerce o sangue fresco,
que a terra me não côma vivo,

[excerto]

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Presídio


Poema do livro
"O áspero hálito do amanhã"

domingo, 4 de janeiro de 2009

Presídio


Aqui ficam os meus agradecimentos à Zélia Santos por ter dado a sua excelente voz a este poema




e também à Eliane que fez um excelente pps, para abrir carregar em

attachment: PRESÍDIO.pps que se encontra debaixo da música