quinta-feira, 4 de agosto de 2011

NÓDOAS ACORDADAS - Alberto Pereira




NÓDOAS ACORDADAS


Aprendi tantas vezes a morte,
sempre que o Verão atracava lâminas.
Abruptamente,
o catecismo afectivo mordia veneno.
As mulheres como navalhas
ruíam num sopro as cidades sobre a pele.

Mas o tempo trazia sempre
uma fogueira a acordar outro rosto.

Pela vigília luminosa, vinham de novo sereias,
a engolir a memória.
As lágrimas soerguidas nas nódoas
como satélites a espiar o encanto.

Lembro ainda a febre,
ora a estibordo, ora a bombordo,
de cada passo.
As palavras cálidas à flor da língua
a derreter a terra inteira
e de repente
um estrépito de paraíso.

Depois, o desenlace dos dias,
os minutos a respirarem a névoa,
as mulheres inesperadas noutros corpos.

Só na velhice entendi, 
um incêndio aprende-se com o gelo.

Alberto Pereira


Poema do livro
Amanhecem nas rugas precipícios









sexta-feira, 29 de julho de 2011

Revista "Os meus livros", edição de Agosto - Artigo sobre o livro "Amanhecem nas rugas precipícios", de Alberto Pereira, dedicado a João Aguardela


Na edição de Agosto, da revista "Os meus livros", pode ler-se um texto intitulado "Vozes Subtis" (pag. 41), onde são mencionados três exemplos distintos que reclamam atenção, fora das grandes coberturas mediáticas.


Entre estes livros está "Amanhecem nas rugas precipícios", de Alberto Pereira, dedicado a João Aguardela e com prefácio de
Pedro Sena-Lino.

Menciona João Morales , no texto:

Faz todo o sentido que a dedicatória surja "para o João Aguardela que não pôde envelhecer", uma vez que um dos vectores fulcrais em "Amanhecem nas rugas precipícios", (Edium Editores) ...., de Alberto Pereira, é a passagem do tempo e o confronto constante entre a infância e a velhice, com os seus contrastes e semelhanças dissimuladas...
Há uma sub-reptícia tentação de desafio - aos elementos e ao divino (patente em títulos como "Afinador de Nuvens", "Meteorologista de Lágrimas" ou "Estendal de vulcões").

Aqui ficam 2 dos poemas mencionados:


AFINADOR DE NUVENS

Passo as horas a afinar nuvens,
a ouvir-te trovejar nas veias.
Desde que me embargaste o corpo
com a tempestade,
nunca mais me aproximei de mim.
O céu ficou senil,
gesticula apenas uma miserável nódoa de paraíso
onde componho sinfonias com veneno.

A cabeça estremece,
tenho a memória raptada por sonetos indígenas.
Esfuziante o teu rosto desarruma o ódio.
Atravesso a pólvora, estrangulo o nevoeiro.
Na leveza do silêncio a garganta dorme.

A peregrinação de cactos
nunca impediu nada.
E ali estás tu,
o catálogo de precipícios
que não esqueço.

O coração é um relâmpago
a legendar cicatrizes.



ESTENDAL DE VULCÕES


Há quanto tempo o cérebro não vai ao dentista?
Uma sarjeta mal vigiada
acaba sempre a florir aftas.
Porque não arrancar os preservativos às palavras
para que os homens aconteçam.
Escurece-os a impotência dos dentes
sempre acomodados à crise das gengivas.

O palato não nasceu para engolir o escuro.
Vergar a língua é encomendar
um caixão para a cabeça.
Talvez por isso,
a boca seja um estendal de vulcões,
farto de se adiar em aspirinas.

Há quanto tempo o cérebro não vai ao dentista?
Sílabas sem esmalte,
são barbatanas para a cárie.
Mas os lábios têm por destino,
afogar lanças em perfume.

O pântano chega mais tarde,
quando o tártaro inunda o látex.

Os homens não sabem que as rugas começam na garganta.




Para todos os que queiram ler o artigo na íntegra, a revista já se encontra à venda.



Quanto ao livro, pode ser adquirido nos seguintes locais:





Livraria Porto Editora - Rua da Fábrica, 90, 4050-246 Porto

Livraria Porto Editora - Av. Óscar Lopes, loja 0.16, 4450-337 - Leça da Palmeira

Livraria Wook - Dolce Vita Tejo - Av. Cruzeiro Seixas, lojas 1080 e 1081, 2650-504 Amadora

Livraria Pó dos Livros - Av. Marquês de Tomar, 89A, Lisboa




quinta-feira, 28 de julho de 2011

sexta-feira, 22 de julho de 2011

João Aguardela

Em Setembro é editada a biografia sobre o músico João Aguardela, da autoria de Ricardo Alexandre.
Na edição de Agosto da revista "Os Meus Livros", leia sobre “Amanhecem nas Rugas Precipícios”, livro de poesia escrito por Alberto Pereira, que lhe é dedicado.

http://oml.com.pt/blogs/2011/07/21/biografia-de-joao-aguardela-e-editada-em-setembro/

sábado, 2 de julho de 2011

Amanhecem nas rugas precipícios - Locais de venda



Locais de venda do livro:

http://www.ediumeditores.org/livros/poesia/art-9789897010323/amanhecem-nas-rugas-precipicios.aspx

http://www.ediumeditores.org/postos-venda-livros.aspx


AMANHECEM NAS RUGAS PRECIPICIOS

                    
Amanhecem nas rugas precipícios.
Pesam os dias empinados no vazio,
o tempo é fogo coado
a narrar o escaldar da neve.

A ocidente do coração
a juventude  atrelada ao sangue.
No olhar o selim sedoso
onde se sentam ainda as mulheres
que despiam o paraíso.
Vêm devagar, tenebrosas,
com a distância em combustão.

Amanhecem nas rugas precipícios.
Espreitam na escotilha corporal,
migalhas luminosas enamoradas de sombra.

Já nada tosquia as cicatrizes.

A memória é um rebanho
de arame farpado
e a eternidade
o único tempo que morre.

Alberto Pereira
do livro "Amanhecem nas rugas precipícios"

ESTENDAL DE VULCÕES



ESTENDAL DE VULCÕES


Há quanto tempo o cérebro não vai ao dentista?
Uma sarjeta mal vigiada
acaba sempre a florir aftas.
Porque não arrancar os preservativos às palavras
para que os homens aconteçam.
Escurece-os a impotência dos dentes
sempre acomodados à crise das gengivas.

O palato não nasceu para engolir o escuro.
Vergar a língua é encomendar
um caixão para a cabeça.
Talvez por isso,
a boca seja um estendal de vulcões,
farto de se adiar em aspirinas.

Há quanto tempo o cérebro não vai ao dentista?
Sílabas sem esmalte,
são barbatanas para a cárie.
Mas os lábios têm por destino,
afogar lanças em perfume.

O pântano chega mais tarde,
quando o tártaro inunda o látex.

Os homens não sabem que as rugas começam na garganta.

Poema de Alberto Pereira
Livro Amanhecem nas rugas precipícios

À venda nos seguintes locais:




segunda-feira, 20 de junho de 2011

O LUMINOSO DESFIAR DA MEMÓRIA

TEXTO DO POETA RICARDO GIL SOEIRO
SOBRE O NOVO LIVRO DE ALBERTO PEREIRA,
"AMANHECEM NAS RUGAS PRECIPÍCIOS".


LER TEXTO NO SITE DA EDIUM EDITORES

http://www.ediumeditores.org/blog/20116/alberto-pereira-visto-por-ricardo-gil-soeiro.aspx

Ricardo Gil Soeiro

"gostaria de defender que a poesia de Alberto Pereira é simultaneamente luminosa e opaca ou, se quiserem numa outra formulação, luminosamente opaca. Confia-nos alguns dos seus segredos, é certo; mas recusa oferecer-se totalmente, pelo menos de um modo linear; é um livro, em suma, que alberga o cintilante dom dos enigmas".

domingo, 12 de junho de 2011

Texto de apresentação do livro "Amanhecem nas rugas precipícios"


Agora que o calor do lançamento do livro está um pouco mais distante, deixo aqui o texto lido na apresentação, porque me foi pedido por algumas pessoas.



TEXTO DE ALBERTO PEREIRA


APRESENTAÇÃO DO LIVRO
"AMANHECEM NAS RUGAS PRECIPÍCIOS".


Estar aqui é habituar a timidez a muita gente. Trazer o interior à plateia e deixar o reportório de enigmas deflagrar sobre os outros.
Faz já algum tempo que a intensidade do imaginário me roubou as mãos. Um rio que veio com a água de muitos. Pessoas que avisto nestas cadeiras. Uns oriundos de horizontes longínquos, outros de paisagens recentes.
Talvez por isso, não seja de mau grado principiar por onde normalmente se termina. Trazer à superfície nomes que me ensinaram a corrente.
Começo por agradecer ao Pedro Sena-Lino, pelos excelentes poetas que me aconselhou a ler. De Herberto Hélder a Ruy Belo, de Al Berto a Ramos Rosa, entre outros, todos me ensinaram a habitar a utopia. Depois, pelas horas intermináveis que tem perdido com os abismos que lhe apresento para limar. E também por ter feito o prefácio. Alertou-me várias vezes, um livro prefaciado por alguém pode limitar a autonomia do autor, porque este fica conotado a um estilo. Mesmo assim, entre a gratidão e o medo da crítica, escolhi ter o seu nome nesta obra, porque as coisas valem o coração que lhes quisermos dar.

Ao editor Jorge Castelo Branco, por todo o apoio.

Ao Ricardo Gil Soeiro, poeta em ascensão, que de imediato aceitou o convite para apresentar o livro.

Ao João Andrade da Silva, que representa nesta mesa a Liberdade.
Liberdade pela qual lutou quando a ditadura levantava a voz e também a que qualquer leitor pode ter ao analisar as palavras.

Ao Gonçalo Oliveira por dizer os meus delírios e ao Fernando Frias por os musicar.

À Céu que gastou horas a ouvir a rabugice das palavras, quando estas não tinham saúde para entrar nos poemas.

Ao Paulo Fonseca que vibrou tanto quanto eu, sempre que um verso chegava à Foz.

Ao Manuel Alonso pelas críticas construtivas.

Ao Carlos Pedro por me deixar levar metáforas para a nossa amizade.

E a todas as pessoas aqui presentes, não menos importantes.

Após os agradecimentos, o livro.

Em Dezembro de 2008, “O áspero hálito do amanhã”, e hoje, “Amanhecem nas rugas precipícios”. Alguns questionarão: porquê tanto declínio nas páginas destes trabalhos?
Simplesmente porque a escuridão é o útero da claridade.
Um livro, ordenhar do puzzle que foi chovendo dentro de um corpo. Tempestade que precisa de se lançar desse arranha-céus que é uma caneta. Cair na folha, entrar no branco, contar a memória, disparar metáforas para aliviar o vento e concluir, os grandes infernos são os que tiveram sol em excesso.
Letras que avançam até ao fim do molhe e enxergam os nossos olhos. Sai-nos do poente, um horizonte que não esperávamos. Muros que se confundiram com pássaros, nuvens interpretadas como asas, amores com o escorbuto no trono.
Em Amanhecem nas rugas precipícios, passeia a velhice. Prefácio de ciprestes. Flores que ficaram para trás. Mel com pressa. Pólen com a colmeia deprimida.
A vida. Facas e muros.
Perguntas que chegaram tarde ou nunca se fizerem.

O que sobra da anatomia do fascínio?

Qual a velocidade de uma amizade ectópica?

Quanto tempo demora o céu a levar um tiro na cabeça?

E as respostas.
Lâminas a que fechámos as portas.
Saber agora,
o futuro foram cães a morder relâmpagos.
Um incêndio aprende-se com o gelo.
O decote da névoa é inútil quando se esqueceu a acrobacia de uma manhã.
E que o paraíso é uma viagem que termina sempre no Inferno.
Mas este livro tem um sentido primordial, “dar” a velhice a alguém que não a pôde ter. Este sim, o grande destino desta tarde. Um objectivo. Que por momentos, todos possamos desaguar num homem e esse é João Aguardela.
Músico que não conheci no palco, mas sim numa cama de hospital. Líder e fundador dos Sitiados. Quem não se lembra do célebre refrão “esta vida de marinheiro está a dar cabo de mim”.
Posteriormente esteve envolvido em projectos como Megafone, Linha da Frente e A Naifa, numa tentativa constante de combinar a música tradicional portuguesa com sonoridades Pop e Rock. Nesta linha de inovação, ficou também ligado aos poetas. Musicou textos de José Luís Peixoto, Pedro Sena-Lino, Adília Lopes, Rui Lage, entre outros.
São os cruzamentos que a vida decide que a tornam fascinante. Recordo com saudade as conversas que tínhamos sobre literatura. Ele na sua jangada de lençóis e eu nas margens do seu desespero. Numa delas, disse-me: ainda um dia vou musicar um poema teu.
Embora nunca tenha convivido com João fora desse mundo de dor que é um hospital, cresceu em mim a necessidade de fazer algo por alguém que a doença calou prematuramente.
Porque o tempo não lhe permitiu musicar um poema meu, fica este livro, para que o esquecimento não o encontre.
Muito obrigado a todos.

Alberto Pereira
21/05/2011