segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Antologia da Moderna Poética Portuguesa



No próximo Sábado, 02 de Março, 15h, Teatro Rivoli, Porto, lançamento da ANTOLOGIA DA MODERNA POÉTICA PORTUGUESA, da Seda Publicações, na qual participo. 
O evento está inserido no conjunto de actividades culturais paralelas ao Fantasporto.

"Esta antologia, pretende ser representativa do que de melhor se produz em poesia na actualidade e conta com a participação de 42 poetas.

Alberto Pereira, Alice Caetano, Alice Macedo Campos, Ana Bárbara Santo António, Ana Carvalho, Ana Homem de Albergaria, Ana Paula Mabrouk, André Lamas Leite, António Carlos Santos, Armando Moreira, Carla Marques, Catarina Nunes de Almeida, Cristiano Duna, Delfina Antunes, Eduardo Leal, Emílio Miranda, Filipa Leal, Francisco Pipa, Gustavo Brandão Nascimento, Jessica Neves, Joaquim Fernando Fonseca, Jorge Vicente, José Duarte, Luísa Azevedo, Manuela Ferreira, Manuel Capelo, Maria João Cantinho, Maria Nóbrega, Marta Dias, Miguel Braamcamp de Mancellos, Paulo Alexandre Castro, Paulo Assim, Pedro Diamantino, Ricardo Gil Soeiro, Rosa Maria Ribeiro, Rui Fonseca, Rui Miguel Duarte, Rui Tojeira, Rui Vasqueiro, Teresa Almeida, Teresa Brinco de Oliveira e Vicente Ferreira da Silva."

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Herberto Helder / Havia um Homem que Corria pelo Orvalho Dentro



Havia um homem que corria pelo orvalho dentro.
O orvalho da muita manhã.
Corria de noite, como no meio da alegria,
pelo orvalho parado da noite.
Luzia no orvalho. Levava uma flecha
pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado
loucamente
por um caçador de que nada se sabia.
E era pelo orvalho dentro.
Brilhava.

Não havia animal que no seu pêlo brilhasse
assim na morte,
batendo nas ervas extasiadas por uma morte
tão bela.
Porque as ervas têm pálpebras abertas
sobre estas imagens tremendamente puras.

Pelo orvalho dentro.
De dia. De noite.
A sua cara batia nas candeias.
Batia nas coisas gerais da manhã.
Havia um homem que ia admiravelmente perseguido.
Tomava alegria no pensamento
do orvalho. Corria.

Ouvi dizer que os mortos respiram com luzes transformadas.
Que têm os olhos cegos como sangue.
Este corria, assombrado.
Os mortos devem ser puros.
Ouvi dizer que respiram.
Correm pelo orvalho dentro, e depois
estendem-se. Ajudam os vivos.
São doces equivalências, luzes, ideias puras.
Vejo que a morte é como romper uma palavra e passar

— a morte é passar, como rompendo uma palavra,
através da porta,
para uma nova palavra. E vejo
o mesmo ritmo geral. Como morte e ressurreição
através das portas de outros corpos.
Como uma qualidade ardente de uma coisa para
outra coisa, como os dedos passam fogo
à criação inteira, e o pensamento
pára e escurece

— como no meio do orvalho o amor é total.
Havia um homem que ficou deitado
com uma flecha na fantasia.
A sua água era antiga. Estava
tão morto que vivia unicamente.
Dentro dele batiam as portas, e ele corria
pelas portas dentro, de dia, de noite.
Passava para todos os corpos.
Como em alegria, batia nos olhos das ervas
que fixam estas coisas puras.
Renascia.


Herberto Helder, in "A faca não corta o fogo"

domingo, 16 de dezembro de 2012

Revista Inefável - Entrevista a Alberto Pereira


Revista Inefável - Entrevista a Alberto Pereira por Ricardo Gil Soeiro.

http://revistainefavel.blog.pt/9-2/

"À boleia do poder da imagem e da imaginação, as suas palavras voam num compasso singular, ardendo num fogo lento, e constroem um 
alfabeto luminoso que reflecte a dor que a morte representa e a redenção que a presença do amor sempre traduz. Múltiplas são as paisagens interiores que os versos de Alberto Pereira logram transmitir. Basta estar aberto ao desafio do grito frágil que toda a poesia é. Um poeta único com uma obra a descobrir."

Ricardo Gil Soeiro

domingo, 11 de novembro de 2012

POEMA DE ALBERTO PEREIRA DO LIVRO - RESPOSTAS A PABLO NERUDA-.wmv



Caros amigos aqui fica mais um trabalho do meu próximo livro. Este poema é actual. Fala da situação conturbada do país e dos subsídios que cada vez mais são necessários. Mas também daqueles que os utilizam indevidamente. 

"Desconto para a 
insegurança social,
para não ter direito ao sangue.

No parlamento barbeia-se o pus.
Mas para quê,
se as veias só têm flores enforcadas.

Quando fiquei doente o dinheiro roeu a trela.
Já sabia,
carteiras com frio, aprendem dilúvios.
......

Poema de Alberto Pereira
Voz e vídeo - Zélia Santos


domingo, 16 de setembro de 2012

Meteorologista de Lágrimas - Alberto Pereira



METEOROLOGISTA DE LÁGRIMAS

É feriado na solidão,
vejo-te descer a memória a poente do desespero.
Desde que as rugas me embriagaram a pele,
poucos se lembram de mim.
Todos me olham, 
mas, na verdade, poucos me vêem.

Agora que chego ao fim,
sei que as vírgulas mordem o destino
e este se faz de crianças fundeadas na distância.
Acredita,
sou um meteorologista de lágrimas,
adivinho as marés que encharcam o rosto
quando o coração pressente a baixa-mar.

Lembro-me,
era sobre os nossos corpos
que as aves amanheciam,
e eu,
eu ia com elas,
entre as margens de tudo.
Só quando partiste percebi,
a noite cresce mais que o mundo
e Deus cabe numa algibeira.

O paraíso é uma viagem
que termina sempre no inferno.


Alberto Pereira
in "Amanhecem nas rugas precipícios"