Não deixa de ser curiosa a ligação entre o filme "One hundredth of a second" e o conto "A última fotografia", de Alberto Pereira.
O fotógrafo que habituado a espreitar o mundo pela lente de uma máquina, se vê depois confrontado com a crueldade das imagens que o levaram ao topo.
As imagens que o colocam onde sempre ambicionou, são as mesmas que o arruínam. Assim aconteceu com Kevin Carter, que acabou por se suicidar depois ter ganho o prémio máximo da fotografia, a famosa imagem do abutre que aguarda pacientemente que uma criança desnutrida morra, para a devorar.
Mais um triste exemplo que a realidade presta ao imaginário.
Aqui fica um pouco do conto "A última fotografia", de Alberto Pereira que venceu o Concurso "Ora, vejamos" 2009, conto este dedicado ao músico João Aguardela, que faleceu em Janeiro deste ano.
"Hafid recusou-se a mostrar-me a última fotografia.
O homem calmo deu lugar a outro que se transfigurou. Ficou irritado, diria mesmo que teve um ataque de fúria, o seu corpo tremeu, os olhos ficaram rubros, tão rubros que se via a agitação nas pupilas. A minha insistência para observar a derradeira imagem perturbou-o tanto, que a feição serena se desvaneceu por completo. Recusou-se a fazê-lo e saiu do quarto batendo a porta com violência. Só voltou ao anoitecer, sem que um murmúrio se ouvisse.
Durante um mês, deixei de sentir os cheiros da praia, a rebentação das ondas junto à falésia e até de imaginar as mulheres na areia a entregarem o corpo aos raios de sol. Apagaram-se as cores do crepúsculo porque a sua boca se fechou e passei a perceber que a noite chegava, somente porque a claridade desaparecia do quarto.
Mas há três dias, decidiu quebrar o silêncio. Sentou-se de novo junto a mim e abriu o álbum de fotografias como nos velhos tempos. Abriu-o precisamente na imagem que nunca me quis mostrar. Disse então:
- Esta foi a fotografia que arruinou a minha vida, foi a última que tirei já lá vão alguns anos. Ganhei com ela o prémio Pulitzer de fotojornalismo.
Observei-a atentamente, era medonha. Via-se uma menina vergada sobre a terra seca, a figura esquelética de um corpo desnutrido, esgotado pela fome. Atrás dela, em segundo plano, a figura negra e atenta de uma ave à espera da sua morte.
Depois, sem que eu lhe perguntasse nada, Hafid começou a falar.
- Esperei cerca de vinte minutos que o abutre se fosse embora, mas ele estava concentrado na sua presa, aguardava o derradeiro fôlego da criança. Movimentei-me, mas algo me fez parar. Tinha à minha frente um momento único, a fotografia que iria impressionar o mundo. Hesitei, mas sabia que seria a melhor de todas. Escolhi o ângulo, as mãos estavam firmes, a brisa era sufocante. Senti o suor escorrer-me na testa, mas isso não foi suficiente para me perturbar. O abutre apoiava as patas brancas sobre um arbusto ressequido, o pescoço estava ligeiramente inclinado para a frente e a plumagem negra totalmente recolhida. Premi o botão e registei o momento. O abutre e a criança não se mexeram. Corri então na direcção do animal para que ele se fosse embora, este abriu as asas e levantou voo, mas ficou a sobrevoar a zona.
- E a criança? – perguntei.
- Essa, continuou prostrada no chão, com os braços magros apoiados na terra seca e os dedos a segurar a cabeça que era maior que o resto do corpo.
Havia um campo de ajuda alimentar a cerca de um quilómetro, uma distância impossível de alcançar para quem nem sequer tinha força para pestanejar”.[1]
- E o que fez?
- Não vai acreditar, mas abandonei o local o mais rápido possível.
- Você é um abutre!
- Talvez, na época várias vozes se levantaram contra mim.
- Porque não fez nada?
Hafid ficou em silêncio.
- Porque não fez nada?
As lágrimas deslizaram-lhe pela face.
- Havia um rígido código de conduta entre os fotógrafos nestes cenários de miséria, estávamos proibidos de nos aproximar destas pessoas pelo perigo de contrair doenças.
- O que vale isso, comparado com uma vida?
- Nada!
- Então porque actuou assim?
- Ainda hoje me arrependo de não ter ajudado a menina.
- E o que aconteceu à criança?
- Já não vi, certamente morreu e foi devorada minutos depois pelo bico faminto da ave de rapina. Eu estava habituado a ver o mundo por uma lente, essa era a minha paixão e na altura não dei conta que praticava um acto tribal, ao abandonar no solo alguém que podia ter sido salvo.
Nunca mais fotografei depois desse dia.
Mas o pior estava para vir. Até os que me atribuíram o prémio me criticaram meses mais tarde. Amargurado isolei-me, consumi drogas, passei horas com uma garrafa na mão a beber álcool em quantidades dignas de desfazer um fígado em menos de nada. Os dias foram passando, fiquei só, os amigos desapareceram. Os críticos faziam-se ouvir de uma forma tão cruel que me tornei um farrapo. A pressão era tanta que não aguentei.
- O que fez?
- Pensei em suicidar-me.
[1] – Relato baseado nas descrições existentes sobre a
fotografia de Kevin Carter, Prémio Pulitzer 1994
domingo, 22 de Novembro de 2009
One Hundredth Of a Second e conto "A última fotografia" de Alberto Pereira relatam o drama dos fotógrafos de topo
quinta-feira, 19 de Novembro de 2009
Livros do Concurso "Ora, vejamos" 2009
Caros amigos, já estão à venda na net, os livros do Concurso de Contos/Poesia "Ora, vejamos" 2009".
Há histórias interessantes fora do mercado livreiro habitual, e escritores que só vingarão, se os leitores acreditarem também em trabalhos que não chegam às grandes livrarias. Aqui ficam, para quem quiser usufruir das personagens desconhecidas que amantes da escrita, também desconhecidos, deram à luz.

Livro dos contos do concurso «Ora, vejamos... 2009»
Autores:
Alberto Pereira, Augusto Dias, Eurico Ferraz, Filipe Arnaso, José António L. M. Baptista, Maria Carvalhosa, Teresa Krusse

Livro dos poemas do concurso «Ora, vejamos...2009».
Autores:
Alberto Pereira, Carlos Augusto Neves e Sousa Ramos, Ester Afonso, Eugénia Vieira, Eurico Ferraz, Isabel Solano, Maria Augusta Loureiro, Maria Carvalhosa, Maria de Lourdes Barbosa Oliveira, M. Alexandra Vassalo, Teresa Krusse e Vilma Machado.
Para quem os quiser adquirir, aqui ficam os seguintes endereços:
http://horabsurda.org/moodle/
http://www.lulu.com/product/paperback/fotografias/5994564
http://www.lulu.com/product/paperback/serenidades/5964693
Há histórias interessantes fora do mercado livreiro habitual, e escritores que só vingarão, se os leitores acreditarem também em trabalhos que não chegam às grandes livrarias. Aqui ficam, para quem quiser usufruir das personagens desconhecidas que amantes da escrita, também desconhecidos, deram à luz.

Livro dos contos do concurso «Ora, vejamos... 2009»
Autores:
Alberto Pereira, Augusto Dias, Eurico Ferraz, Filipe Arnaso, José António L. M. Baptista, Maria Carvalhosa, Teresa Krusse

Livro dos poemas do concurso «Ora, vejamos...2009».
Autores:
Alberto Pereira, Carlos Augusto Neves e Sousa Ramos, Ester Afonso, Eugénia Vieira, Eurico Ferraz, Isabel Solano, Maria Augusta Loureiro, Maria Carvalhosa, Maria de Lourdes Barbosa Oliveira, M. Alexandra Vassalo, Teresa Krusse e Vilma Machado.
Para quem os quiser adquirir, aqui ficam os seguintes endereços:
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http://www.lulu.com/product/paperback/serenidades/5964693
segunda-feira, 19 de Outubro de 2009
O HOMEM CAÍDO

Alugam-se quartos na memória.
Os neurónios mobilados
com pensamentos carnívoros,
babam máscaras
na castração mental.
Rangem aflições
no metropolitano cardíaco,
chegam carruagens ácidas
ao apeadeiro corporal.
Nas veias descem cicatrizes
decotadas de madrugada
e os homens caídos
rendilham o sangue sulcados na desolação.
Alberto Pereira
Poema do livro "O áspero hálito do amanhã"
sábado, 17 de Outubro de 2009
1º Prêmio Sepé Tiaraju de Poesia Ibero-Americana

Das 3027 obras a concurso, provenientes de 26 países,
encontram-se dois poetas portugueses,
Luís de Aguiar e Alberto Pereira
que ficaram respectivamente em 2º e 3º lugar.
1º : Nicolas Diaz Badilla - Chile
2º : Luís de Aguiar - Portugal
3º : Alberto Pereira - Portugal
2º Luís de Aguiar
O LIMITE DO MUNDO
Ter o limite do mundo
no risco maduro da mão
um golpe profundo
rasga a bolsa das águas
e liberta o feto
com nervos fibras e sangue
e ossos transparentes
O músculo do feto
encharca o interior da mãe
e suas válvulas
átomos de luz
O suor de Deus no líquido
amniótico.
PEDRA ANGULAR
Eis a pedra angular
a tornar-se redonda antónimo
de velocíssima espuma
Imagina a tua alma
uma sede amarela
viva seda prurido vermelho
criado
sem pálpebras ou outros lençóis
O ressurgir do assassínio
dos buracos na mente
onde nasceu a argila
e o homem multiplicou-se
na viva ferocidade
do âmago do grão sémen de sol
CLARIDADE OU SÍMBOLO
Escoa-se a casa
rama de cobre
caule atado ateado
fruta enlaçada
no anzol astrológico
Na minha visão nudez
algum transe
claridade ou símbolo
uma insónia
a pernoitar no crânio
enquanto o bebé explode da mãe
e a mãe avé maria
do chão ao céu
E sufocam as jóias
o mármore destapado bordado
por unhas grandiosas
A casa
rama de cobre
ânus semeado
violado espelho de luz
3º Alberto Pereira
AFINADOR DE NUVENS
Passo as horas a afinar nuvens,
a ouvir-te trovejar nas veias.
Desde que me embargaste o corpo
com a tempestade,
nunca mais me aproximei de mim.
O céu ficou senil,
gesticula apenas uma miserável nódoa de paraíso
onde componho sinfonias com veneno.
A cabeça estremece,
tenho a memória raptada por sonetos indígenas.
Esfuziante o teu rosto desarruma o ódio.
Atravesso a pólvora, estrangulo o nevoeiro.
Na leveza do silêncio a garganta dorme.
A peregrinação de cactos
nunca impediu nada.
E ali estás tu,
o catálogo de precipícios
que não esqueço.
O coração é um relâmpago
a legendar cicatrizes.
CREPÚSCULO NÚ
Nasci louco, fui perdendo o corpo no manejo dos anos.
A terra não vigiava os passos,
falavam desse mar invertido calafetado sobre as cabeças.
Depois encostaram adultos aos brinquedos
e estes ficaram amargos.
Mataram-me as lendas nos olhos
quando os dias degolaram a inocência.
Apenas conhecia a mitologia de quatro paredes.
Cá fora os homens reivindicando o inferno,
sujos, cambaleantes, pulverizando nódoas.
As mulheres varrendo desejos,
organizando o idioma decimal da solidão.
Encostadas às esquinas, as crianças vazias
a ensinar a corrupção à memória.
Falavam das namoradas que nunca conheceram,
amavam-nas loucamente nas revistas que não sabiam decifrar.
Tinham as imagens, o rumor pueril no adro do olhar.
Passeavam pelo magnetismo, convictos que no fundo do abismo
a transparência respiraria a sua voz.
Olham agora para trás,
espiam o sangue que coxeia no coração.
Escoa-se como um touro ferido tombado nos ventrículos.
Há já mais poeira do que cor, pergunta-se até,
para quê sangue se rezar nos pulmões não parou a névoa.
O futuro são cães a morder relâmpagos.
IMPOSSÍVEL
Chegar a ti, impossível.
As manhãs já não dizem tempo,
só o silêncio sabe o teu corpo inteiro.
Escorrego por cada palavra,
convenço a pele que não morreste.
Imagino-te ainda como se o sangue
pudesse adormecer.
Eu digo,
o sonho é ouro desavindo,
uma tocha louca no coração afogado.
As manhãs já não dizem tempo,
a mocidade das coisas
dança na peregrinação da distância.
Há beijos inebriados
que procuram a memória,
como se ontem não fosse noite.
Tenho os olhos rachados
pela obesidade das lágrimas,
são tantas as que despenteiam a ilusão.
Talvez nunca seja sempre,
por isso parto.
http://ocadasletras.com.br/?module=noticias&action=noticia&ID=5
domingo, 4 de Outubro de 2009
quinta-feira, 1 de Outubro de 2009
CONCURSO DE POESIA/CONTO “ORA VEJAMOS” 2009

O poeta Alberto Pereira, vencedor do Concurso de Poesia,
“Ora vejamos” em 2008, ano em que editou o livro,
“O áspero hálito do amanhã”, venceu em 2009
a modalidade de Conto, com o trabalho “A última fotografia”,
dedicado a João Aguardela,
com quem conviveu meses antes de este ter falecido.
Nunca é demais recordar que o líder dos Sitiados,
foi mentor dos projectos Megafone, A Naifa e Linha da Frente,
tendo este último consistido, na interpretação de textos
de poetas portugueses por parte de várias bandas nacionais.
A modalidade de Poesia foi ganha este ano por Isabel Solano,
com o poema “Silêncios”.
FRAGMENTOS DO CONTO ´"A ÚLTIMA FOTOGRAFIA"
"Passo os dias estendido nesta cama, sei de cor tudo o que aqui acontece. O zumbir dos alarmes, o horário em que os médicos e enfermeiros me visitam, as auxiliares que todas as manhãs vêm de esponjas em punho e me esfregam de forma tão rápida que me sinto como um automóvel a ser lavado numa estação de serviço; a boca que fica muitas vezes suja, como uma fossa a coleccionar restos de comida. O creme gorduroso com que me massajam, o braço picado de fazer análises de rotina, a psicóloga que tenta salvar-me da depressão. Os exercícios que o fisioterapeuta me ensina e que não consigo fazer. A empregada de refeitório que repete as dietas que já me enjoam. A mulher desdentada que limpa o chão, o voluntário de bata amarela que sai de casa para o hospital porque ainda não acredita que está reformado. Conheço também este quarto. As duas camas separadas por um cortinado velho, o lavatório branco com a torneira cromada onde corre apenas água fria, as mesas-de-cabeceira com gavetas pequenas e as cadeiras de plástico arrumadas ao lado do armário. Conheço tudo isto e também Hafid, que nesta manhã de Outono quis imitar o ciclo das estações e partir da vida como as folhas que lá fora se desprendem das árvores.
Estendido no leito, junto à janela, está o velho fotógrafo. Tem a face pálida e os lábios roxos. No corpo o sangue parece ter sido sugado. Os membros esqueceram o movimento, os músculos suspensos sobre os ossos em breve ficarão duros.
Como sabem, ao princípio não simpatizei com ele, porque ninguém gosta que lhe chamem cobarde, senti até repugnância, mas com o tempo tudo mudou. Habituei-me à sua rotina. Levantava-se cedo, tão cedo que por vezes a cor negra da noite não se apagara do horizonte. Sobre o tampo extensível da mesa-de-cabeceira pousava a bacia de alumínio com água tépida, espalhava o creme no rosto e desfazia a barba. Em seguida saía do quarto para o duche matinal, regressava trinta minutos mais tarde e dava então início a um ritual que sempre me impressionou. Guardanapo à esquerda, tigela ao centro e seringa à direita. Quando puxava a camisola para cima, lá estava o tubo de plástico enfiado na barriga. Tirava-lhe a tampa, aspirava o leite com a seringa e em pequenas doses despejava o pequeno-almoço dentro de si. Descia depois até à praia para comprar o jornal e só regressava perto do meio-dia. O resto do tempo passava-o aqui, neste quarto, junto a mim."
"Quero tocar à campainha, mas não consigo. Ninguém aparece.
O céu está carregado de nuvens e pela escassa claridade da manhã adivinha-se que choverá em breve.
Que dia triste para morrer.
Quando olho para aquele canto, vejo Hafid, apresentando-me o mundo lá fora. Nunca espreitei pela janela, mas conheço todos os lugares para lá dela. Conheço-os, porque ele os relatou.
O mar do outro lado da estrada. A praia com conchas esmagadas junto à rebentação, as algas a flutuar ao sabor das marés, as pedras cobertas de musgo, o mexilhão agarrado às rochas junto à falésia. E as gaivotas, essas nunca param, ora no solo a disputar pedaços de comida, ora no céu a sobrevoar a costa. Até do bar sei o nome, “São Pedro”. A esplanada com mesas brancas e cadeiras de ráfia, o chão de madeira manchado pelo sal, o tubarão de borracha pendurado no tecto, o toldo transparente que desce quando o vento sopra com força. E os pescadores, esses matam as horas a lançar anzóis para as profundezas do mar, na esperança que um peixe justifique os momentos de solidão. Falou-me também de um homem que passa o dia na praia de pá em punho a tapar os buracos mais fundos, nunca percebi porquê, mas também nunca lhe perguntei.
Ao final da tarde debruçado sobre o parapeito da janela, Hafid fazia-me sonhar.
Falava do crepúsculo como um poeta.
“O sol desce ao ritmo de um caracol.
O céu está em chamas.
Os barcos ancorados como brasas vão-se afundando
na cor ardente do horizonte.
Desmaia sobre a água uma brisa fria,
tudo escurece lentamente.
A fogueira apaga-se, há apenas cinza no céu.
Chegou a noite.”
Depois fechava a janela e eu sabia que o dia tinha chegado ao fim.
Os meses passavam, as fotografias sucediam-se, as histórias eram cada vez mais interessantes. Tornei-me um viciado destes momentos, de ver o velho sentar-se perto de mim ao início da tarde, de o ouvir contar pedaços de uma vida que mais parecia um puzzle captado em vários lugares da terra. Mas quando ao puzzle apenas faltava uma peça, algo de estranho aconteceu.
Hafid recusou-se a mostrar-me a última fotografia.
O homem calmo deu lugar a outro que se transfigurou. Ficou irritado, diria mesmo que teve um ataque de fúria, o seu corpo tremeu, os olhos ficaram rubros, tão rubros que se via a agitação nas pupilas. A minha insistência para observar a derradeira imagem perturbou-o tanto, que a feição serena se desvaneceu por completo. Recusou-se a fazê-lo e saiu do quarto batendo a porta com violência. Só voltou ao anoitecer, sem que um murmúrio se ouvisse.
Durante um mês, deixei de sentir os cheiros da praia, a rebentação das ondas junto à falésia e até de imaginar as mulheres na areia a entregarem o corpo aos raios de sol. Apagaram-se as cores do crepúsculo porque a sua boca se fechou e passei a perceber que a noite chegava, somente porque a claridade desaparecia do quarto.
Mas há três dias, decidiu quebrar o silêncio. Sentou-se de novo junto a mim e abriu o álbum de fotografias como nos velhos tempos. Abriu-o precisamente na imagem que nunca me quis mostrar. Disse então:
- Esta foi a fotografia que arruinou a minha vida, foi a última que tirei já lá vão alguns anos. Ganhei com ela o prémio Pulitzer de fotojornalismo.
Observei-a atentamente, era medonha. “Via-se uma menina vergada sobre a terra seca, a figura esquelética de um corpo desnutrido, esgotado pela fome. Atrás dela, em segundo plano, a figura negra e atenta de uma ave à espera da sua morte.
Depois, sem que eu lhe perguntasse nada, Hafid começou a falar."
Alberto Pereira
domingo, 30 de Agosto de 2009
terça-feira, 25 de Agosto de 2009
Deus serpente
O beijo (Edvard Munch)

Ergo-me na periferia nupcial
do teu rosto.
Há beijos demolidos
a voar ténues sorrisos,
salivas costuradas
que choram hálitos enforcados.
Em que idade dos teus lábios
forraste a minha língua de abandono?
Deixa-me publicar
um derradeiro beijo
na demência da tua boca,
para que possa imprimir
o hálito anoréctico do caos.
Poema do livro "O áspero hálito do amanhã"
de Alberto Pereira
CÂNTICO DA REVOLTA

Estou farto desta gente feita de farrapos
que salpica os dias
numa demência mascarada de mel.
Estou farto dos deuses apodrecidos
que procriam desumanidade
na alma inexistente.
Sim vós,
magnéticas lapas com sorrisos encenados
na latitude febril do preconceito,
entendo agora
porque vos baptizaram oportunistas.
Vós que cresceis na seiva incisa
da desgraça alheia
cuspindo moral hasteada de tragédia.
Basta de tanta sedução,
nenhum olhar me devora a dignidade,
pois sou um vendaval solitário
infectado de distância.
Quero-vos a arder no meu esquecimento,
ali, onde me possam ver as ideias
serem expulsas para o aconchego da loucura.
Quero gritar a revolta, parir a liberdade,
abraçar o erro, vomitar a multidão.
Respira-se a realidade engelhada
nas consciências adormecidas,
e eu,
país de absoluta insatisfação
parto no imaginário para a inquietação,
mas seguir-vos não,
seguir-vos não.
Poema do livro "O áspero hálito do amanhã"
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