domingo, 12 de junho de 2011

Texto de apresentação do livro "Amanhecem nas rugas precipícios"


Agora que o calor do lançamento do livro está um pouco mais distante, deixo aqui o texto lido na apresentação, porque me foi pedido por algumas pessoas.



TEXTO DE ALBERTO PEREIRA


APRESENTAÇÃO DO LIVRO
"AMANHECEM NAS RUGAS PRECIPÍCIOS".


Estar aqui é habituar a timidez a muita gente. Trazer o interior à plateia e deixar o reportório de enigmas deflagrar sobre os outros.
Faz já algum tempo que a intensidade do imaginário me roubou as mãos. Um rio que veio com a água de muitos. Pessoas que avisto nestas cadeiras. Uns oriundos de horizontes longínquos, outros de paisagens recentes.
Talvez por isso, não seja de mau grado principiar por onde normalmente se termina. Trazer à superfície nomes que me ensinaram a corrente.
Começo por agradecer ao Pedro Sena-Lino, pelos excelentes poetas que me aconselhou a ler. De Herberto Hélder a Ruy Belo, de Al Berto a Ramos Rosa, entre outros, todos me ensinaram a habitar a utopia. Depois, pelas horas intermináveis que tem perdido com os abismos que lhe apresento para limar. E também por ter feito o prefácio. Alertou-me várias vezes, um livro prefaciado por alguém pode limitar a autonomia do autor, porque este fica conotado a um estilo. Mesmo assim, entre a gratidão e o medo da crítica, escolhi ter o seu nome nesta obra, porque as coisas valem o coração que lhes quisermos dar.

Ao editor Jorge Castelo Branco, por todo o apoio.

Ao Ricardo Gil Soeiro, poeta em ascensão, que de imediato aceitou o convite para apresentar o livro.

Ao João Andrade da Silva, que representa nesta mesa a Liberdade.
Liberdade pela qual lutou quando a ditadura levantava a voz e também a que qualquer leitor pode ter ao analisar as palavras.

Ao Gonçalo Oliveira por dizer os meus delírios e ao Fernando Frias por os musicar.

À Céu que gastou horas a ouvir a rabugice das palavras, quando estas não tinham saúde para entrar nos poemas.

Ao Paulo Fonseca que vibrou tanto quanto eu, sempre que um verso chegava à Foz.

Ao Manuel Alonso pelas críticas construtivas.

Ao Carlos Pedro por me deixar levar metáforas para a nossa amizade.

E a todas as pessoas aqui presentes, não menos importantes.

Após os agradecimentos, o livro.

Em Dezembro de 2008, “O áspero hálito do amanhã”, e hoje, “Amanhecem nas rugas precipícios”. Alguns questionarão: porquê tanto declínio nas páginas destes trabalhos?
Simplesmente porque a escuridão é o útero da claridade.
Um livro, ordenhar do puzzle que foi chovendo dentro de um corpo. Tempestade que precisa de se lançar desse arranha-céus que é uma caneta. Cair na folha, entrar no branco, contar a memória, disparar metáforas para aliviar o vento e concluir, os grandes infernos são os que tiveram sol em excesso.
Letras que avançam até ao fim do molhe e enxergam os nossos olhos. Sai-nos do poente, um horizonte que não esperávamos. Muros que se confundiram com pássaros, nuvens interpretadas como asas, amores com o escorbuto no trono.
Em Amanhecem nas rugas precipícios, passeia a velhice. Prefácio de ciprestes. Flores que ficaram para trás. Mel com pressa. Pólen com a colmeia deprimida.
A vida. Facas e muros.
Perguntas que chegaram tarde ou nunca se fizerem.

O que sobra da anatomia do fascínio?

Qual a velocidade de uma amizade ectópica?

Quanto tempo demora o céu a levar um tiro na cabeça?

E as respostas.
Lâminas a que fechámos as portas.
Saber agora,
o futuro foram cães a morder relâmpagos.
Um incêndio aprende-se com o gelo.
O decote da névoa é inútil quando se esqueceu a acrobacia de uma manhã.
E que o paraíso é uma viagem que termina sempre no Inferno.
Mas este livro tem um sentido primordial, “dar” a velhice a alguém que não a pôde ter. Este sim, o grande destino desta tarde. Um objectivo. Que por momentos, todos possamos desaguar num homem e esse é João Aguardela.
Músico que não conheci no palco, mas sim numa cama de hospital. Líder e fundador dos Sitiados. Quem não se lembra do célebre refrão “esta vida de marinheiro está a dar cabo de mim”.
Posteriormente esteve envolvido em projectos como Megafone, Linha da Frente e A Naifa, numa tentativa constante de combinar a música tradicional portuguesa com sonoridades Pop e Rock. Nesta linha de inovação, ficou também ligado aos poetas. Musicou textos de José Luís Peixoto, Pedro Sena-Lino, Adília Lopes, Rui Lage, entre outros.
São os cruzamentos que a vida decide que a tornam fascinante. Recordo com saudade as conversas que tínhamos sobre literatura. Ele na sua jangada de lençóis e eu nas margens do seu desespero. Numa delas, disse-me: ainda um dia vou musicar um poema teu.
Embora nunca tenha convivido com João fora desse mundo de dor que é um hospital, cresceu em mim a necessidade de fazer algo por alguém que a doença calou prematuramente.
Porque o tempo não lhe permitiu musicar um poema meu, fica este livro, para que o esquecimento não o encontre.
Muito obrigado a todos.

Alberto Pereira
21/05/2011

3 comentários:

maria carvalhosa disse...

Obrigada, Alberto. Vou guardá-lo junto aos textos que releio com frequência. Beijos ternos.

Anónimo disse...

"...porque as coisas valem o coração que lhes quisermos dar." Bateu muito forte cá dentro, meu Amigo!! Gostei imenso desta sua análise tão expressiva. Mais uma vez , obrigada, por nos "acordar" com as suas palavras ditas! Um grande , grande abraço desta sua Amiga de Sempre. M. P.

Graça Pires disse...

Um texto que é um pretexto para o poeta dizer de forma magnífica o que é ser um poeta que sente, que se alegra, que sofre como os outros. Guardá-lo-ei junto às leituras especiais. Obrigada.
Beijos.