sexta-feira, 17 de setembro de 2010
"LIVRO" DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO
"A mãe pousou o LIVRO nas mãos do filho".
É desta forma que começa o novo romance de José Luís Peixoto.
Frase que é um horizonte onde nos aguardam personagens inesquecíveis.
Assim aconteceu em:
NENHUM OLHAR
"Hoje o tempo não me enganou."
UMA CASA NA ESCURIDÃO
"Era uma vez o fim da tarde."
CEMITÉRIO DE PIANOS
"Quando comecei a ficar doente, soube logo que ia morrer."
sábado, 31 de julho de 2010
Alberto Pereira "O áspero hálito do amanhã"
Aqui fica o book-trailer relativo à 2ª edição do livro, "O áspero hálito do amanhã", de Alberto Pereira.
Publicado a primeira vez em Novembro de 2008, pela Edium Editores, saiu agora com uma nova capa, em Junho de 2010.
Prefácio de Xavier Zarco
Este “O áspero hálito do amanhã”, que tem agora entre mãos, apresenta-se estruturado sob três ciclos autónomos: “Dói-me a utopia”, “Arquipélago da loucura” e “Mordem pincéis nas palavras”.
Mas esta aparência autónoma é exactamente isso: meramente aparente. É uma ilusão elaborada como hipótese de caminho, de uma via a seguir no processo criativo. Uma demanda em que o criador se veste como usufruidor da criação artística para, posteriormente, proceder à recriação: erguer dentro de um corpo um corpo outro.
Talvez por isso Alberto Pereira tenha escolhido, como epígrafe a este seu volume, um dístico de Pedro Sena-Lino onde este menciona:
Não somos feitos de pele,
somos feitos de feridas.
algo que nos abre o corpo, que nos incita ao doloroso processo da indagação. Essa dor presente logo no título do primeiro movimento: “Dói-me a utopia”.
Mas que dor é esta que a ferida em nós desperta?, é, na minha leitura, a dor essencial vista como purificadora da oficina para que o processo criativo se possa iniciar.
Não sei como dizer-me que és um hemisfério de desejo
afogado na nudez da memória
Pelo que a ferida de que somos feitos radica no centro de nós, a nossa própria memória, espaço privilegiado para a edificação da obra sentida como “hemisfério de desejo”.
No entanto, não basta preparar o espaço e deter a consciência da possibilidade do erigir em obra o que em si, “na nudez da memória”, se intui existir. Há portanto que possuir os instrumentos e a estes atribuir as funções necessárias para dar continuidade ao processo criativo.
Surge-nos então o “Arquipélago da loucura”, conjunto de corpos, como a própria palavra arquipélago indicia, cada um com as suas especificidades, mas que formam um todo.
Mas este é um todo em mutação, onde “a abrupta harmonia na quietude do imperceptível”, que se descobre quando “O tempo acende o sono dos sorrisos e a cada dia que passa nascem ilhas”, novos artefactos porque novas são as necessidades para o desvelar da obra, é um arquipélago que cresce a cada passo sob o olhar atónito do criador.
Há a oficina e os instrumentos e a obra surge no derradeiro movimento: “Mordem pincéis nas palavras”. O que aí leio é um contínuo diálogo, quase intertextual com os mais diversos quadros, imagens que foram reavivadas, resgatadas à memória.
Aí Alberto Pereira lança mão ao que elaborou anteriormente para nos trazer uma partilha, não de meras impressões, mas, tal como mencionei, do que é fruto de um intenso diálogo com o objecto de arte, o que desta existia em si e do seu próprio contexto.
Um criador, que assume a função da fruição, do outro em si, para erguer, recriar e nos brindar com este “Áspero hálito do amanhã”.
Para adquirir o livro basta ir a:
http://www.ediumeditores.org
terça-feira, 13 de julho de 2010
UM PRECIPÍCIO A QUE QUEREMOS PERTENCER - POEMAS DITOS
Episódio 4
Eugénio de Andrade - Adeus
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava!
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os teus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os teus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...
já não se passa absolutamente nada.
E, no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
Não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
sexta-feira, 28 de maio de 2010
UM PRECIPÍCIO A QUE QUEREMOS PERTENCER - POEMAS DITOS 3
Episódio 3
Al Berto - Há-de flutuar uma cidade no crepusculo da vida
Há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu… como seriam felizes as mulheres
à beira-mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado
por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos… sem ninguém
e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta… dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca do mar ao fundo da rua
assim envelheci… acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão
(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no
coração, mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)
um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas de que alguma vez me visite a felicidade
quarta-feira, 26 de maio de 2010
LANÇAMENTO DO LIVRO, "MATERIAL ANGÚSTIA" DE PEDRO SENA-LINO

Será lançado hoje, 26 de Maio, um volume que selecciona
33 poemas do poeta Pedro Sena-Lino. É editado pela Cosmorama,
com o título "Material Angústia".
Tem posfácio de Ludovic Heyraud, professor em Montpellier.
Para quem quiser estar presente, o lançamento é às 19h, na Casa Museu Anastácio Gonçalves, na Av. 5 de Outubro.
terça-feira, 25 de maio de 2010
ALBERTO PEREIRA - AFINADOR DE NUVENS_0002.wmv
Aqui fica o excelente trabalho de Zélia Santos,
que mais uma vez teve a generosidade de emprestar
a sua voz às minhas palavras.
O poema "Afinador de Nuvens", foi premiado com o 3º lugar
no Concurso Sepé Tiaraju de Poesia Ibero-Americana em 2009,
entre 3027 poemas inscritos de 26 países.
quarta-feira, 19 de maio de 2010
UM PRECIPÍCIO A QUE QUEREMOS PERTENCER - POEMAS DITOS - 2
Episódio 2
Mário Cesariny/Navio de espelhos
O navio de espelhos
não navega, cavalga
Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível
Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos
Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele
Os armadores não amam
a sua rota clara
(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)
Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga
O seu porão traz nada
nada leva à partida
Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta
E no mastro espelhado
uma espécie de porta
Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto
A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto
Quando um se revolta
há dez mil insurrectos
(Como os olhos da mosca
reflectem os objectos)
E quando um deles ála
o corpo sobre os mastros
e escruta o mar do fundo
Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)
Do princípio do mundo
até ao fim do mundo
Mário Cesariny
ENTREVISTA A ALBERTO PEREIRA
quinta-feira, 13 de maio de 2010
UM PRECIPÍCIO A QUE QUEREMOS PERTENCER - POEMAS DITOS
Herberto Helder / Minha cabeça´
Episódio 1
Um precipício a que queremos pertencer, será uma série
de poemas em vídeo, onde seremos alvejados pelo
poder das palavras.
O imaginário a gritar sobre o mundo.
domingo, 9 de maio de 2010
A PAISAGEM NO HOMEM

Pintura de
Mari Lopes, 1999
"Homem Lendo o Jornal",2m X 1m50, têmpera acrílica sobre tela
Acervo da TV Cultura-SP, Brasil
A PAISAGEM NO HOMEM
O homem sentado na cadeira estava sereno.
Tinha a face avermelhada e o cabelo esquecido,
não por vontade própria,
mas porque os dias lhe atraiçoaram o pente.
O pente não tinha razões para tomar anti-depressivos,
porque nos dois lados da cabeça sobravam ainda
cabelos brancos.
Os cabelos tinham a cor da idade.
Os olhos precisavam de óculos para encontrar o mundo.
O homem tinha uma aliança na mão esquerda
e os dedos pequenos.
Os dedos da mão direita também eram pequenos
e estavam apoiados no sofá.
As notícias entravam pelas lentes
para encontrar os olhos.
Os olhos gostavam do que viam,
porque os lábios deixavam acontecer
um sorriso leve.
O homem não sorria
porque o campo à sua frente era verde
e tinha árvores floridas.
Mas a paisagem imitava o homem,
porque ambos estavam serenos.
Alberto Pereira
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