sábado, 2 de julho de 2011

ESTENDAL DE VULCÕES



ESTENDAL DE VULCÕES


Há quanto tempo o cérebro não vai ao dentista?
Uma sarjeta mal vigiada
acaba sempre a florir aftas.
Porque não arrancar os preservativos às palavras
para que os homens aconteçam.
Escurece-os a impotência dos dentes
sempre acomodados à crise das gengivas.

O palato não nasceu para engolir o escuro.
Vergar a língua é encomendar
um caixão para a cabeça.
Talvez por isso,
a boca seja um estendal de vulcões,
farto de se adiar em aspirinas.

Há quanto tempo o cérebro não vai ao dentista?
Sílabas sem esmalte,
são barbatanas para a cárie.
Mas os lábios têm por destino,
afogar lanças em perfume.

O pântano chega mais tarde,
quando o tártaro inunda o látex.

Os homens não sabem que as rugas começam na garganta.

Poema de Alberto Pereira
Livro Amanhecem nas rugas precipícios

À venda nos seguintes locais:




1 comentário:

maria carvalhosa disse...

Excelente, Alberto! Este teu texto combina um elevado domínio da escrita poética com uma ironia a um tempo fina e corrosiva. Cinco estrelas. Sem qualquer dúvida!