quinta-feira, 1 de outubro de 2009

CONCURSO DE POESIA/CONTO “ORA VEJAMOS” 2009



O poeta Alberto Pereira, vencedor do Concurso de Poesia,
“Ora vejamos” em 2008, ano em que editou o livro,
“O áspero hálito do amanhã”, venceu em 2009
a modalidade de Conto, com o trabalho “A última fotografia”,
dedicado a João Aguardela,
com quem conviveu meses antes de este ter falecido.
Nunca é demais recordar que o líder dos Sitiados,
foi mentor dos projectos Megafone, A Naifa e Linha da Frente,
tendo este último consistido, na interpretação de textos
de poetas portugueses por parte de várias bandas nacionais.

A modalidade de Poesia foi ganha este ano por Isabel Solano,
com o poema “Silêncios”.


FRAGMENTOS DO CONTO ´"A ÚLTIMA FOTOGRAFIA"


"Passo os dias estendido nesta cama, sei de cor tudo o que aqui acontece. O zumbir dos alarmes, o horário em que os médicos e enfermeiros me visitam, as auxiliares que todas as manhãs vêm de esponjas em punho e me esfregam de forma tão rápida que me sinto como um automóvel a ser lavado numa estação de serviço; a boca que fica muitas vezes suja, como uma fossa a coleccionar restos de comida. O creme gorduroso com que me massajam, o braço picado de fazer análises de rotina, a psicóloga que tenta salvar-me da depressão. Os exercícios que o fisioterapeuta me ensina e que não consigo fazer. A empregada de refeitório que repete as dietas que já me enjoam. A mulher desdentada que limpa o chão, o voluntário de bata amarela que sai de casa para o hospital porque ainda não acredita que está reformado. Conheço também este quarto. As duas camas separadas por um cortinado velho, o lavatório branco com a torneira cromada onde corre apenas água fria, as mesas-de-cabeceira com gavetas pequenas e as cadeiras de plástico arrumadas ao lado do armário. Conheço tudo isto e também Hafid, que nesta manhã de Outono quis imitar o ciclo das estações e partir da vida como as folhas que lá fora se desprendem das árvores.
Estendido no leito, junto à janela, está o velho fotógrafo. Tem a face pálida e os lábios roxos. No corpo o sangue parece ter sido sugado. Os membros esqueceram o movimento, os músculos suspensos sobre os ossos em breve ficarão duros.
Como sabem, ao princípio não simpatizei com ele, porque ninguém gosta que lhe chamem cobarde, senti até repugnância, mas com o tempo tudo mudou. Habituei-me à sua rotina. Levantava-se cedo, tão cedo que por vezes a cor negra da noite não se apagara do horizonte. Sobre o tampo extensível da mesa-de-cabeceira pousava a bacia de alumínio com água tépida, espalhava o creme no rosto e desfazia a barba. Em seguida saía do quarto para o duche matinal, regressava trinta minutos mais tarde e dava então início a um ritual que sempre me impressionou. Guardanapo à esquerda, tigela ao centro e seringa à direita. Quando puxava a camisola para cima, lá estava o tubo de plástico enfiado na barriga. Tirava-lhe a tampa, aspirava o leite com a seringa e em pequenas doses despejava o pequeno-almoço dentro de si. Descia depois até à praia para comprar o jornal e só regressava perto do meio-dia. O resto do tempo passava-o aqui, neste quarto, junto a mim."






"Quero tocar à campainha, mas não consigo. Ninguém aparece.
O céu está carregado de nuvens e pela escassa claridade da manhã adivinha-se que choverá em breve.
Que dia triste para morrer.
Quando olho para aquele canto, vejo Hafid, apresentando-me o mundo lá fora. Nunca espreitei pela janela, mas conheço todos os lugares para lá dela. Conheço-os, porque ele os relatou.
O mar do outro lado da estrada. A praia com conchas esmagadas junto à rebentação, as algas a flutuar ao sabor das marés, as pedras cobertas de musgo, o mexilhão agarrado às rochas junto à falésia. E as gaivotas, essas nunca param, ora no solo a disputar pedaços de comida, ora no céu a sobrevoar a costa. Até do bar sei o nome, “São Pedro”. A esplanada com mesas brancas e cadeiras de ráfia, o chão de madeira manchado pelo sal, o tubarão de borracha pendurado no tecto, o toldo transparente que desce quando o vento sopra com força. E os pescadores, esses matam as horas a lançar anzóis para as profundezas do mar, na esperança que um peixe justifique os momentos de solidão. Falou-me também de um homem que passa o dia na praia de pá em punho a tapar os buracos mais fundos, nunca percebi porquê, mas também nunca lhe perguntei.
Ao final da tarde debruçado sobre o parapeito da janela, Hafid fazia-me sonhar.
Falava do crepúsculo como um poeta.

“O sol desce ao ritmo de um caracol.
O céu está em chamas.
Os barcos ancorados como brasas vão-se afundando
na cor ardente do horizonte.
Desmaia sobre a água uma brisa fria,
tudo escurece lentamente.
A fogueira apaga-se, há apenas cinza no céu.
Chegou a noite.”

Depois fechava a janela e eu sabia que o dia tinha chegado ao fim.
Os meses passavam, as fotografias sucediam-se, as histórias eram cada vez mais interessantes. Tornei-me um viciado destes momentos, de ver o velho sentar-se perto de mim ao início da tarde, de o ouvir contar pedaços de uma vida que mais parecia um puzzle captado em vários lugares da terra. Mas quando ao puzzle apenas faltava uma peça, algo de estranho aconteceu.
Hafid recusou-se a mostrar-me a última fotografia.
O homem calmo deu lugar a outro que se transfigurou. Ficou irritado, diria mesmo que teve um ataque de fúria, o seu corpo tremeu, os olhos ficaram rubros, tão rubros que se via a agitação nas pupilas. A minha insistência para observar a derradeira imagem perturbou-o tanto, que a feição serena se desvaneceu por completo. Recusou-se a fazê-lo e saiu do quarto batendo a porta com violência. Só voltou ao anoitecer, sem que um murmúrio se ouvisse.
Durante um mês, deixei de sentir os cheiros da praia, a rebentação das ondas junto à falésia e até de imaginar as mulheres na areia a entregarem o corpo aos raios de sol. Apagaram-se as cores do crepúsculo porque a sua boca se fechou e passei a perceber que a noite chegava, somente porque a claridade desaparecia do quarto.
Mas há três dias, decidiu quebrar o silêncio. Sentou-se de novo junto a mim e abriu o álbum de fotografias como nos velhos tempos. Abriu-o precisamente na imagem que nunca me quis mostrar. Disse então:
- Esta foi a fotografia que arruinou a minha vida, foi a última que tirei já lá vão alguns anos. Ganhei com ela o prémio Pulitzer de fotojornalismo.
Observei-a atentamente, era medonha. “Via-se uma menina vergada sobre a terra seca, a figura esquelética de um corpo desnutrido, esgotado pela fome. Atrás dela, em segundo plano, a figura negra e atenta de uma ave à espera da sua morte.
Depois, sem que eu lhe perguntasse nada, Hafid começou a falar."


Alberto Pereira

13 comentários:

Henrique Sousa disse...

Saturday, 3 October 2009, 16:59

Caro Alberto, mais um primeiro lugar, desta vez na modalidade conto. Grande honra a nossa, podermos contar com o teu talento. Está um conto soberbo e feito com base em factos reais.
Muito bem urdido, excepcional imaginação.
Parabéns!

Henrique Sousa
Publicado no "Ora vejamos"

Isabel Solano disse...

Saturday, 3 October 2009

Já tinha espreitado, mas não quis comentar sem ler tudo com atenção e só hoje pude fazê-lo.

Contudo, faltam-me agora as palavras, no rescaldo das emoções que este conto suscita.

Os meus muito, mas mesmo muito, sinceros parabéns, Alberto!

Publicado no "Ora vejamos"

Ashera disse...

Saturday, 3 October 2009

Renovo os meus Parabéns, pelo teu conto fabuloso!
A Divulgação do teu Blog continua a ser feita por todos os meios, na internet, tal como te prometi.
Oxalá esteja em Leiria para celebrarmos o encontro....vai depender de muitos factores , querido amigo.
Estejas bem sempre. Sou tua fã...mas disso já falámos.
Ashera

Publicado no fórum "Ora vejamos"

Margusta disse...

Alberto, agora já com o conto lido renovo os meus sinceros PARABÉNS!

ADOREI!

Um beijo ,
Margusta

Publicado no "Ora vejamos"

Maria de Lourdes Barbosa Oliveira disse...

Alberto,Parabéns!! Parabéns!!
Encantei-me com seu conto.Lindíssimo!!
Vi o seu resultado ,hoje cedo,mas, só agora pude ler seu trabalho e parabenizá-lo.Felicidades no seu cotidiano literário!
Um beijo, carinho.

Maria de Lourdes Barbosa Oliveira

Publicado no "Ora vejamos"

Maria Carvalhosa disse...

Alberto, meu querido amigo, PARABÉNS!!! Para além de poeta, és um contista de mão-cheia. Não te disse que ías ganhar o primeiro prémio??? Não poderias desiludir-me, Amigo.
Estou tão feliz, mas tão feliz!... Havemos de fazer uma grande festa.
Beijos e abraços com muito afecto.
maria

Publicado no "Ora vejamos"

Heloisa disse...

SINCEROS PARABENS ALBERTO!

ESTE CONTO*****, COMOVEU-ME PROFUNDAMENTE!

DESEJO-LHE VERDADEIRO SUCESSO NA SUA VIDA DE ESCRITOR E POETA,
BEM COMO SAUDE E MUITAS ALEGRIAS JUNTO DOS SEUS ENTES QUERIDOS!

UM ABRACO.

Heloisa

Teresa Krusse disse...

Parabéns, Alberto. Já o admirava como poeta.

Muitos dos factos que aqui relatou são-me familiares,através da televisão e dos jornais e revistas da época, o caso da menina que se afogou, ontem mesmo vi a imagem no Paris Match. Antigo, fez-me imensa impressão, na altura.

Ditos por si, alcançam nova dimensão.

Tenho por costume visitar feiras, onde vendem revistas antigas, tipo Paris Match, basear-me em histórias antigas, traduzi-las, e construir novas.
Aconteceu-me isso com o "romance" da Jacqueline e do John Kennedy.

Mais uma vez parabéns! É sempre um prazer lê-lo.

Teresa Krusse

Publicado no "Ora vejamos"

Filipe Antunes disse...

Parabéns ao Alberto, de quem já li vários textos e na verdade escreve solta e lindamente.

Filipe Antunes

Publicado no eliene's site

Anónimo disse...

Amigo Alberto, gostei imenso do teu conto. Antes de mais acho que fizeste algo que é dificil, e k nem todos da nossa área coseguem, k é ver as coisas com os olhos do doente. Fizeste-o de forma brilhante,com emoção verdadeira. Ao ler o conto, pareceu me ter voltado uns meses atrás...a situações que presenciei. Parabéns,para mim é um dos teus melhores textos. Lilia

Zélia Santos disse...

Vi-me transportada para esse quarto de hospital...senti os cheiros, visualizei as cores, e também fui à janela ...
Magnifico Alberto!!!!
Muitos muitos parabéns!!
Beijinho
Zélia

Publicado no site Ora vejamos

Manuel Alonso disse...

Alberto, gostei do conto, não me admira o prémio. Não te deixes embalarJ

Abraço
Manuel Alonso

Mensagem via e-mail

Mitinha Gaiteira disse...

Amigo Alberto,

li o teu conto que é de uma simplicidade efémera, pois a complexidade do conteúdo é subjectiva. Adorei!
É muito difícil colocarmo-nos no lugar dos outros e foi bem sucedido.
Tenho muitos textos relativos ao tema dos Cuidados Paliativos e gostaria de o convidar a visitar o meu blogue Delírios da Minha Alma para os ler.
Parabéns! é sempre gratificante lê-lo.

Beijo
Carmen Ezequiel
http://renataoblie.blogspot.com