quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Bairro de lata



No fim de um estreito carreiro desembarca um mundo perdido.
Uma floresta de tábuas eriçadas que se espreguiçam na miséria, dão abrigo aos homens mudos de sonhos.
O horizonte merenda a arquitectura desordenada dos telhados de zinco que cobrem a madeira nua que treme de podridão. Em cima deles um sem número de inutilidades; pneus, tijolos e lixo reciclado pelas mentes que necessitam de guardar alguma coisa para enganar a desilusão.
Não se ouvem pássaros, apenas gritos e rumores das mulheres que dissecam cada pormenor da vida alheia. Estas não usam cremes, os seus cheiros são meteorológicos, pois o pouco dinheiro que lhes resta serve para saciar a fome à realidade.
As crianças correm, são “livres”, embora habituadas a sentir o álcool enfurecer as mãos dos pais sem razão plausível. Joga-se à bola, ao berlinde e às escondidas. Realizam-se os jogos olímpicos várias vezes por mês, com prémios de cortiça e taças feitas com garrafas de óleo, cabos de vassoura e pratas retiradas dos maços de tabaco já consumidos.
Os homens embriagam os dias de esquecimento, os filhos com a infância engarrafada lavam o futuro na revolta.
Aqui abrem-se as portas à memória, o tempo acende o sono dos sorrisos e a cada dia que passa nascem ilhas.

5 comentários:

Maria Carvalhosa disse...

Optaste por um tema real, infelizmente deprimente, mas que faz parte do nosso quotidiano. Tens razão! Não fechemos mais os olhos para não vermos o que é feio, nos desagrada ou nos dói... não sejamos avestruzes, imaginando que o mundo é, todo ele, um lugar maravilhoso, onde não há lugar para a miséria e o infortúnio... durante todo o tempo em que conseguimos manter a cabeça bem escondida na areia!

Obrigada. Beijos.

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Joaõ Norte disse...

São as faces visíveis da miséria social. A vergoanha de nós todos.É muito fácil para aqueles que fingem ignorar.

Filipe Antunes disse...

É o retrato mais poético que já li sobre bairros de lata. O ambiente deprimente que relatas chega a ser revoltante e afável ao mesmo tempo. Gostei dessas "fotos" que tiraste com as lentes da alma e imprimiste com letras de choque. Sabes ver e contar as coisas. Parabéns.

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Tefnut disse...

De facto consegues transformar o horrendo em poesia e isso é sinal de que és poeta mesmo quando escreves em prosa. Particularmente bonita esta descrição das mulheres e dos cheiros: "Não se ouvem pássaros, apenas gritos e rumores das mulheres que dissecam cada pormenor da vida alheia. Estas não usam cremes, os seus cheiros são meteorológicos, pois o pouco dinheiro que lhes resta serve para saciar a fome à realidade" e até parece que as ilhas são aquele lugar idílico com que muitos sonhamos "Aqui abrem-se as portas à memória, o tempo acende o sono dos sorrisos e a cada dia que passa nascem ilhas."

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Eliane disse...

O poeta é um mundo insubornável
que paga em melancolia
a arquitectura ardente da transgressão."
(Alberto Pereira)
Nada mais há para ser dito..está tudo aí nas suas próprias palavras.
beijos Alberto.
Eliane

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